03 agosto, 2022

Se flor, se pássaro, se borboleta






Não fui eu quem plantou esta flor.

Quando a busquei ensejava consolar-me 

de mim, de ti, 

de nossas versões de calendário

todas já rotas, retas, sólidas. 


Nas primeiras semanas em que a cultivei 

Choveu muito

E ela se desandou em lágrimas 

E tons terrosos

e ficou azul

depois roxa

cianótica

cor de morte mesmo.


Pensei que não vingava,

mas tudo bem 

porque adubo 

também nutre.


Mas não. 


Algo desfez-se depois da chuva.

Veio brotando, desabrochando 

se refazendo mesmo 

E já nem sei mais 

Se flor

Se borboleta 

Se pássaro

Ou se somos nós.

05 julho, 2022

QUERIDO DIÁRIO

Hoje fiz a coisa

mais burguesa

a se fazer em

uma terça à tarde:

tirei o sono do atraso. 


Está decidido 

contra o capital 

minha vingança 

será dormida.



08 junho, 2022

DEPOIS ÁGUA

Primeiro a gente perde a vergonha. De existir, de andar no mundo, de falar em público, perde a vergonha de se emocionar, de sentir, como a criar um couro na cara, invencível despudor, o poder de emanar nossa presença. 

Depois de perder a vergonha, a gente perde medo. O assalto da coragem no primeiro passo, assim que de pronto firmamos em marcha, tomamos o rumo. Depois do medo a gente destrava, caminha, nem que seja pra fazer vento e sentir as cócegas de um futuro na barriga ou no pescoço de alguém.

Depois, água. 

UM POEMA PARA UM POETA

Conheci um homem 

que carregava consigo 

sua dignidade de menino.


Ele me contou 

que ainda jovem 

compreendeu o motivo da seda: carícia. 


Com duas mãos de orvalho 

tocou meus olhos de lágrima 


e veja bem: não doeu.


Depois, não sei: parece que engoli uma estrela. 


E entre um soluço e outro, 

ensaiam-se cócegas 

um sorriso

e a paz de quem espera. 



19 abril, 2022

14 março, 2022

O amor nos Tempos do Colera

Atravessamos juntos 

O abismo da saudade 

Pontes sobre o nada

Pela força da idade

Nos encontramos serenos

Despidos de mocidade

Nos habitamos a esmo, 

Repletos de intensidade

27 janeiro, 2022

ESPINOZA ENCONTRA O CAPITALISMO

 Acordar mais cedo 

Despertar com sorte 

Evitar a morte 

Para sustentar 


Acordar com medo 

Ir dormir mais cedo 

Inventar um sonho 

Para conservar 


Acordar pra morte 

Evitar a sorte 

Despertar do sonho 

Inventar AMAR


Acordar pra sorte 

De deitar cabelo 

Enfrentar o medo 

De se levantar 


E caminhar...

Caminhar.




07 setembro, 2021

VELHO BILHETE DE ADEUS

Baby, não deu pra esperar 

Eu sei que você queria 

Mas não deu pra ficar 

Desculpe a louça na pia 

E tanta fumaça no ar


Baby, peguei seu casaco 

Pro caso de tempo ruim 

As vezes preciso de abrigo

Às vezes me escondo de mim


Mas baby, eu tive que ir 

Deixei uma nota de cem 

Pro caso da casa cair 







03 julho, 2021

NÁUFRAGA

Das pessoas que me amaram 

Entre mortos e feridos 

Quase todos se salvaram 


Só eu fiquei. 





11 junho, 2021

LAVOURA AMOROSA

Plantar silêncios 

entre os pelos do teu corpo 

Criar sulcos, redemoinhos afetivos

Regar com a água da boca



26 dezembro, 2020

NOTA DE RODAPÉ




Saudade, cicatriz da memória: a lembrança de um amor que me dói quando estou prestes a chover. 

24 novembro, 2020

Que sibila

 ~ Vibrar na alegria, acolher o vento. Sentir o coração em todo o corpo, conter a emoção sem deixar de ser sentimento. Sentir que partir é poder perder-se em infinitas possibilidades, mas na certeza de um só encontro: um outro consigo mesmo. A sina, o amor e o viver do tempo. O verbo é ser, seguir, sorrir, saber sentir, se florescer, se seduzir, se agigantar no entendimento. ~

Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho. 

🌠

26 outubro, 2020

 Geralmente, tropeço. É característico: um desajeito no caminhar, como se nunca firmasse a marcha, como se ainda ensaiasse os movimentos de um pé depois o outro. Quando em reta, corpo inteiro, desabo em mistérios no asfalto do chão. No declive, me esguio e surfo à baila de espiral e vento. Nos degraus ascendentes, cuidado permanente em manter presos, na boca, todos os dentes.

Mas o pulso firma, me ergo, e ao ver a sombra do meu corpo em movimento, lutando contra a gravidade, penso que grave mesmo é cair e ficar estático. Enquanto houver sol haverá sombra, e haverá luta, e eu seguirei, com um pé após o outro, aprendendo caminhar.

16 setembro, 2020

COMO LAVRAR UM BOLETIM DE OCORRÊNCIA

 hoje eu tinha me programado: 

quando chegasse a noite

quando tudo se acalmasse

passadas as horas de trabalho 

encerradas as tarefas domésticas 

quando todos os animais estivessem alimentados 

eu me sentaria 

quieta 

e escreveria um poema 

com versos de amor 

pra te paquerar 

era esse o meu planejamento: 

ouvir os ecos eróticos que ainda restam no meu corpo 

aproveitar essa onda de calor 

em meio ao inverno chuvoso 

e te mandar um poema-fogueira 

como um braseiro que atravessasse infinitos caminhos digitais 

para chegar ateh teus olhos 

e aquecer teu coração.


assim seria se não fosse essa dura realidade

fui atropelada 

invadida 

saqueada 

esvaziaram o estoque de palavras amorosas 

quando vi as prateleiras vazias de versos 

chorei 

chorei ateh soluçar 

tentei meditar em vão 

tentei perdoar os invasores 

e não adiantou

pois sei que fui eu que abri a porta. 


enfim, faça-se pelo menos o registro da ocorrência


em vez de um poema de amor 

te envio o B.O.

e

podes queimar depois de ler.

22 julho, 2020

Um Pomar

"Cada fruta tem um tempo certo para amadurecer e se fazer doce e nutritiva, na medida exata para alguma fome. A fruta madura, colhida no tempo certo, e ainda fresca, na chuva, traz à boca o deleite tão desejado. Seu sumo é ácido na medida certa. Exala o perfume das memórias ancestrais. Colhida na chuva, brilha ainda mais. Macia, suculenta, cheia de cor, sabor e perfume. Assim me jogo em teus braços: fruta madura, colhida no pé, em tempo e condições propícios, um beijo doce da amora na chuva. Dentro da boca, amor e amora, que juntos dançam em harmonia vários ritmos, ora ruminoso e calmo, ora violento e rápido. Morde e depois sente o gosto, mastiga mas não engole, gozando o entre. Demoro-me entre teus dentes, sou sumo, casca, polpa e semente."

O PROBLEMA DA TUA BARBA

O problema da tua barba
É a distância
Entre ela
E minhas mãos.

18 junho, 2020

EU PROCURO ALGUÉM PARA COMPARTIR O SILÊNCIO


Eu procuro alguém para compartir o silêncio.

Eu procuro alguém para compartir?
Eu procuro alguém?
Eu procuro?
Eu?

Que silêncio?

PRIMEIRAS SAUDADES DE AMAR



Do abraço que entra por baixo da jaqueta, no inverno. Esquentar as costas na conchinha da manhã. Colocar o ouvido na boca. Esquecer que há vida lá fora. Se perder no dentro do Outro.

HABITA-SE


A esperança é a última porta aberta.

26 maio, 2020

SAL DE QUARENTENA


O choro é tanto
Que tenho até uma toalha específica para o pranto
E às vezes ainda uso o pano de prato
Quando a questão é mais urgente

28 março, 2020

EU PROCURO UM POEMA TRISTE


Eu procuro um poema triste
que fale sobre além da falta de futuro, além da falta de passado
Um poema sobre as sobras do presente

Eu procuro um poema triste
que me faça dessentir no estômago essa vertigem da queda, com palavras e gestos que nos façam arremeter

Eu procuro um poema triste
que fale sobre como esquecer o que não já não se lembra mas que vive na gente
como um beliscão atrás do esterno, no peito, em frente o coração

Eu procuro um poema triste
Um poema que chore com os dois olhos

Que seja triste
É cálido
E calmo
E quente no final

Como uma fogueira
ou uma xícara de chá.

09 março, 2020

PRELÚDIO PARA O BOM INVERNO

Quanto a ti
Queimei todos
os teus livros
Em uma única
longa noite de verão

Comendo sorvete
Em frente à lareira
Deixei arder
Folha por folha
De toda tua coleção

O vento alimenta
A chama
Fogo que inflama
Meu coração
Que não é colecionável:

Uma brasa.

09 janeiro, 2020

Duas Gotas D'Água

Ouço do firmamento um canto para o fim de tarde. Duas gotas de suor percorrem meu rosto por caminhos já percorridos, veios vários de rios infinitos. O sal das lágrimas tempera-me nas horas quentes e  as gotas fartas de suor agora me rasgam e regam em vão a pele que habito. O tempo arde e algumas rugas rejuvenescem meu corpo. Um resto infindo de sal do mar que ainda insiste do último banho. A onda, o vento, a falta de riso. O sol se põe e eu me posto verde e aberta para nosso próximo encontro. É nadar ou morrer.

Eu respiro.

27 novembro, 2019

ESTA NOITE DORMIREI COM TUA CAMISETA

.
visitou-me
na forma de um vento
uma saudade
um sopro de dor
da distância que a janela não alcança
teu corpo me esquece
incessante e calmo
o meu se aquece
te recorda
estremece
e durmo com tua camiseta
aquela
que furou na última visita.

19 outubro, 2019

O Cio da Rosa



De manhã
Como tuas pétalas
Desjejum amoroso
Acordo meu corpo com a tua carne
Dentro, em mim
Saciar a fome.

À tarde 
Te açoito meu caule 
O roçar dos espinhos
Como quem coça 
Alívio da pele
Relaxar o tônus 
Desnudar o corpo.

À noite 
Te perfumo 
Com meu hálito 
Faço do teu gozo 
Meu hábito 
E por fim te habito

Sem pétalas, sem folhas, caule ou espinhos
Somente um pedaço de terra, um aroma, uma semente perdida na aurora, à espera de germinar. 

Fazer
Brotar
Diariamente 
Todas as
Formas 
De amar
E reinventar 
A cada dia
Nosso jardim.






29 julho, 2019

PRA VIAGEM


Eu poderia passar horas, dias, anos
adjetivando a tua pessoa
E ressaltado o quanto és
atraente
envolvente
reluzente
inteligente
e sagaz
E poderia intensificar tudo
com qualificações adverbiais
de primeiríssima escala
e potencializar tudo
o que é latente
Poderia dizer que
não foi apenas o ar que me fugiu
O mar que me sorriu
O luar que se esbaldou em tua beleza luminescente
E que o simples fato
de te ver
reduz os infinitos gestos de espera
e de desejo
que eu mesma armadilho
pelo caminho
Eu poderia dizer que a idade
não é e nunca será um problema
Porque o amor não é questão de tempo
e sim de
eternidade
Poderia te dizer que da primeira vez que
repousei meu olhar em tua silhueta
foi como se eu mesma me encotrasse a mim
Porque o amor é como um desmemoriado
que em looping procura seu próprio abismo
e se depara sempre com o próprio umbigo
Eu poderia sim
e te contar tantas histórias quanto fosse possível
Como a formar em apenas uma as mil e uma noites
Realocando as dobras de meu ser em teu ser
como num jogo de quebra-cabeças
Eu poderia escrever-te as canções
Que te dediquei
na juventude
E te dedicar as canções que escreverei
em mim apenas com a pétala do teu olhar
Os melhores versos que as palavras podem gestar
Elaborar-te comícios de amor
Poderia deixar meu corpo
se emocionar
com a presença do teu corpo
Como se nunca houvesse um tempo de distância entre nós.

E no entanto
por enquanto
eu quero
apenas
um café
mas pode
ser pra viagem.