06 dezembro, 2013

Além do Pneumotórax



Um dia
Sabe-se lá como
Acordou misteriosa:
Os médicos bateram chapa
Examinaram-lhe  as têmporas
Pediram elétro...

- Pobre moça...  É um descompasso no coração!

Ela comprou um tamborim usado
E toda noite bebe um gole
Da velha cachaça de rolha
Que herdara do avô

O coração descompassado
Pelo milagre do samba
Agora está calibrado
Diz que o mistério nunca foi embora
Mas sente-se curada
Por dentro e por fora

Eis o mistério do samba!




26 novembro, 2013

La Petite Mort II

 

Let the sun make me shine
Let the moment pass me by
I'm on the way, I'm on the way
Never let me - let me die
 
 

05 novembro, 2013

Da Vida Sonhada

  
 
Eu te prometo dias repletos de poesia:
Desde a nuvem que passa,
Preguiçando nosso olhar depois do almoço
Às formigas que importunam nossa sesta
Tudo será cheio de graça, de paz e de espanto
Tal qual nossos poemas
Que serão paridos na beira do rio
 
Eu te prometo noites cheias de aromas:
Da comida fresca na mesa posta, que te espera
Do meu banho quente e demorado em flores, que te espera
Do meu hálito sereno com palavras mansas, que te espera
Do meu corpo exausto, e casto, e vasto, que te espera
Do meu sexo vivo, que te espera
O aroma da minha espera.
 
Eu te peço algo em troca:
Tua mão no meu cabelo
Teus dedos enlaçados em minhas rédeas
E isso basta.
 
O resto a gente conserta
No escrever dos dias
O resto a gente inventa
No desenrolar das noites
O resto é estrada
E a gente caminha.

31 outubro, 2013

Noite Varada


Escutávamos juntos o canto dos primeiros sabiás, noite varada, olhos exaustos, água da pena e uns bons cigarros. Aos que se entregavam ao sono, distribuíamos cobertas, colchas, travesseiros, almofadas, o que fosse. Ajeita-se qualquer pessoa quando esta dorme por cansaço físico. Tarefa mais fácil ainda quando a parada é etílica. Nenhuma alma, mesmo que perturbada, resiste ao sono do porre. Até porque, dormir é morrer um pouco, o adeus tão esperado, descansar. Mas o canto dos sabiás... Me lembrava o Tom, “vou voltar, sei que ainda vou, vou voltar para o meu lugar...”, e uma angústia absurda me rasgava, tinha a noção da fome no mundo, um saudade de casa, uma vontade de regresso. Mas pra onde eu vou voltar? Eu, que não tinha lugar. “Para onde estamos indo?”, eu indagava, com os olhos marejados. “Estamos indo sempre pra casa”, disse ele, com a voz baixa e mansa, apagando o último cigarro, bebendo o último gole d’água, e me dizendo adeus, pela última vez.

30 outubro, 2013

Meu Espelho



 
Não temo o futuro
Esconderijo secreto
Do que já está aqui
Pois no instante que virá
Nada existe se não o que não há
 
Não sofro o passado
Deixo que meus mortos
Durmam e descansem
Esqueço, no mais,
Até das flores e das pedras
 
Mas esse instante que passa
É meu martírio e meu alento
Esse é lugar onde vivo
O presente é o espelho
Do meu tempo de viver
 

15 outubro, 2013

Há vagas


 
Em dias assim, minha alma transita
entre o mundo e o mundano
entre o real e o insano
Buscando alguns sortilejos
 
E nesta esfera mitológica
Imponho minhas paixões
Empenho as ilusões
 
Às varejeiras ponteadas: a vida
Às matadeiras de combate: a morte
 
Excepciono-me: há vagas
 
 

10 outubro, 2013

Do Prazer de Primaverar-se


Desprender-se
Desaprender-se
Desapegar-se
 
Perseguir-se
Persistir-se
Permitir-se
 
Ser a folha
Ramificar-se
Ser a raiz
Florecer-se
 
 Entre os anjos
Esgueirar-se
Entre as trevas
Perceber-se
 
E depois aproveitar
E gozar
E relaxar 
 
Já chegou a primavera
Já é tempo de amar!

16 setembro, 2013

Fronteiras

 
 

A Natureza, revolta
Construindo um sorriso-ponte
Desbravando um suspiro-estrada
Um caminho etéreo
Fazendo com que meu ser
Toque o seu ser
E assim: seremos


16 agosto, 2013

Casamento

 

Um degrau
Dois corações
Três pedras de gelo

Quatro mãos
Cinco da manhã
Seis mil dólares

Sete anos de azar

 

12 agosto, 2013

Só vai quem voa

Pássaro implume

Eu tinha um jeito de andar
olhando pro chão
que se perdeu
com o passar dos anos.
 
Percebo que agora
tenho considerado 
o horizonte das gentes,
ensaiando o salto,
intencionando-o mesmo.

No mais das vezes 
tropeço, e daí  
rasgar os joelhos, 
acostumar-se à vertigem da queda, 
aprender cair:
tudo já é vôo.

E eu, de braços abertos 
e os olhos bem fechados,
no enquanto,
humildemente,
aproveito a vista.

09 agosto, 2013

Meu bem, guarde um pedaço de pão na manga do seu blusão



Naquele campo
Bordado de flores
Lugar de encontros e desencontros
Espaço de tantos desencantos
Naquele campo
Bordado de versos
Espaço de tempo, sem tempo
Espanto de tantos, no entanto
Naquele campo
Sentei-me
Contei-te versos
Bordei-te amores
E acordei
Bem na hora do café

30 julho, 2013

Cética Lágrima

 

Os olhos aprovam sobejo futuro
Sonhado, passado, o sonho despido
Não guardam rancores, sossegam de cama
Descartam amores vorazes e ambíguos
 
Os olhos merecem mais vida, mais cores
Atrasos, recortes de um corpo varão
Acordam cansados no meio da noite
Bocejam a paz dos que nunca virão
 
Meus olhos, guardados no bolso da calça
Tentando esquecer, não te ver, não sentir
Os meus outros olhos, o lar dos adeuses
Os olhos que nunca me deixam sorrir
 

06 julho, 2013

ESTRATAGEMA



Guardei uns versos no bolso,
para o caso de emergência,
e me fui.

Às vezes, escapo da morte porque sou ligeira. 
Noutras, pelo simples fato de estar em movimento.
Mas o que eu mais gosto é quando sobrevivo pelo milagre poético...

Mastigo o poema, 
ruminando um gosto de vida, 
celebrando o dado momento.


03 julho, 2013

Duas Casas

 

Na delicadeza
do encontro
há lugar
para o regozijo
 
Em casa
lugar do retorno
há mares
há morros
 
Sem anjos:
A delicadeza é um sol que me renasce.

27 junho, 2013

Uma certa noite


E mesmo que não houvesse palco, mesmo que nada fosse ensaiado, mesmo que fossem dois perdidos numa noite roubada, mesmo que todas as probabilidades apontassem na direção do não, eles diziam sim, porque era inexorável, porque era inerente à natureza dos dois, transgressores, perdidos, tolos. E mesmo assim, havia um certo sentido que não deveria estar ali.

Improvisando uma alegria que também estava ali, mas muito íntima e escondida, ela subiu num local improvável, fez dele um palco surpreendente, com seu vestido curto de menina arteira que lhe desvendava as pernas e os pés, e cantou como a diva que sempre será. Cantou manso e rouco e doce e lindo, como há muito a cidade embrutecida não ouvia um canto. E a música improvisada, quase uma outra impossibilidade, selou, enfim, o que eles tinham medo de perceber. Já não adiantava mais nada, já não existiam mais armaduras e todas as defesas, cruelmente, haviam sido superadas.

Naquela noite a cidade não percebeu que uma estrela brilhava mais que as outras. Enquanto todos dormiam, eles queriam os primeiros raios de sol da manhã que não poderia chegar. 

24 junho, 2013

Nós

 
Sobretudo
eu sinto que este nó na garganta
é um gole
um engasgo 
uma gota qualquer
de lágrima ou orvalho ou cachaça
perdida entre as cordas vocais e o peito,
em busca de um sossego largo
em busca de solidão
 
Esse nó é um soluço
um pequeno pedaço de morte
uma deixa para o adeus
um pouco do que não é nada
 
Esse nó
Sou eu

18 junho, 2013

Tic-Tac-o-tempo

 
 Conta o tempo por teus passos
Jamais através de amores
Que o relógio coração
Acelera com as dores
Ao passo que, caminhando
Tu conservas tuas cores ;)

17 junho, 2013

Meu Coração é um Cabaret Lotado

 
 
Meu coração é um cabaret lotado:  
Os aplausos são desejados
Os sorrisos são gratuitos
E o trânsito é natural e selvagem.
Pode haver amor, beleza e regozijo,
Mas ainda assim
É um velho cabaret.

07 maio, 2013

Síncope



E porque chegastes assim
De assalto, roubando-me
O pouco fôlego
Que os cigarros e as noites
de pranto me deixaram
 
E porque não me cobrastes
Nada além do ar, do mar
Do amor que pode existir
Entre dois corpos
 
E porque meus olhos
Quedaram-se mudos nos teus
E minha boca cala-se
diante de tua vontade
 
Porque reconheci em teus gestos
O mesmo desejo de viver sem dor
 
Eu, livre, vaga, leve
Deixo que o céu se imponha
 
Leva-se da vida
O que há de belo
 
Leva-se amor
Nada mais.