16 setembro, 2013

Fronteiras

 
 

A Natureza, revolta
Construindo um sorriso-ponte
Desbravando um suspiro-estrada
Um caminho etéreo
Fazendo com que meu ser
Toque o seu ser
E assim: seremos


16 agosto, 2013

Casamento

 

Um degrau
Dois corações
Três pedras de gelo

Quatro mãos
Cinco da manhã
Seis mil dólares

Sete anos de azar

 

12 agosto, 2013

Só vai quem voa

Pássaro implume

Eu tinha um jeito de andar
olhando pro chão
que se perdeu
com o passar dos anos.
 
Percebo que agora
tenho considerado 
o horizonte das gentes,
ensaiando o salto,
intencionando-o mesmo.

No mais das vezes 
tropeço, e daí  
rasgar os joelhos, 
acostumar-se à vertigem da queda, 
aprender cair:
tudo já é vôo.

E eu, de braços abertos 
e os olhos bem fechados,
no enquanto,
humildemente,
aproveito a vista.

09 agosto, 2013

Meu bem, guarde um pedaço de pão na manga do seu blusão



Naquele campo
Bordado de flores
Lugar de encontros e desencontros
Espaço de tantos desencantos
Naquele campo
Bordado de versos
Espaço de tempo, sem tempo
Espanto de tantos, no entanto
Naquele campo
Sentei-me
Contei-te versos
Bordei-te amores
E acordei
Bem na hora do café

30 julho, 2013

Cética Lágrima

 

Os olhos aprovam sobejo futuro
Sonhado, passado, o sonho despido
Não guardam rancores, sossegam de cama
Descartam amores vorazes e ambíguos
 
Os olhos merecem mais vida, mais cores
Atrasos, recortes de um corpo varão
Acordam cansados no meio da noite
Bocejam a paz dos que nunca virão
 
Meus olhos, guardados no bolso da calça
Tentando esquecer, não te ver, não sentir
Os meus outros olhos, o lar dos adeuses
Os olhos que nunca me deixam sorrir
 

06 julho, 2013

ESTRATAGEMA



Guardei uns versos no bolso,
para o caso de emergência,
e me fui.

Às vezes, escapo da morte porque sou ligeira. 
Noutras, pelo simples fato de estar em movimento.
Mas o que eu mais gosto é quando sobrevivo pelo milagre poético...

Mastigo o poema, 
ruminando um gosto de vida, 
celebrando o dado momento.


03 julho, 2013

Duas Casas

 

Na delicadeza
do encontro
há lugar
para o regozijo
 
Em casa
lugar do retorno
há mares
há morros
 
Sem anjos:
A delicadeza é um sol que me renasce.

27 junho, 2013

Uma certa noite


E mesmo que não houvesse palco, mesmo que nada fosse ensaiado, mesmo que fossem dois perdidos numa noite roubada, mesmo que todas as probabilidades apontassem na direção do não, eles diziam sim, porque era inexorável, porque era inerente à natureza dos dois, transgressores, perdidos, tolos. E mesmo assim, havia um certo sentido que não deveria estar ali.

Improvisando uma alegria que também estava ali, mas muito íntima e escondida, ela subiu num local improvável, fez dele um palco surpreendente, com seu vestido curto de menina arteira que lhe desvendava as pernas e os pés, e cantou como a diva que sempre será. Cantou manso e rouco e doce e lindo, como há muito a cidade embrutecida não ouvia um canto. E a música improvisada, quase uma outra impossibilidade, selou, enfim, o que eles tinham medo de perceber. Já não adiantava mais nada, já não existiam mais armaduras e todas as defesas, cruelmente, haviam sido superadas.

Naquela noite a cidade não percebeu que uma estrela brilhava mais que as outras. Enquanto todos dormiam, eles queriam os primeiros raios de sol da manhã que não poderia chegar.