24 junho, 2006
11 junho, 2006

Assim que amanhecer eu vou sair
Vou ouvir algum pássaro
Vou ouvi-lo, percebê-lo e sentir seu encanto
O encanto do canto
do pássaro a cantar
E amar o seu canto, e deixá-lo amar!
Sem me importar com a hora que passa
O carro que passa
A gente que passa
A dor que não passa
Assim que amanhecer eu vou sair
Vou sentar-me embaixo de uma árvore
E esperar meu pássaro cantar
E aprender a amar o seu canto
Que só encanta quando o pássaro
está livre para voar...
Talvez assim eu me sinta também um pouco pássaro
E me permita aprender a amar.
19 abril, 2006
valsinha
Ao som das sete cordas
Ele percebeu
Que o sol já não brilhava mais
Saiu por uma porta
Que se abriu no tempo
E foi buscar a sua paz
Olhou a rua e com os
pés descalços, frios,
Cheio de ternura e dor
Encheu-se de fina tristeza
E na paisagem
Procurou por seu amor...
E então a deusa viva,
Que voava ao vento,
Vendo tanta solidão
Chegou ao seu ouvido
Como fosse um grito,
Assustando o coração
Lhe disse do dia mais belo
Que lhe libertara
De tanta prisão
Calou-lhe num sincero beijo
E voltou ao vento
Ver do céu a escuridão...
E ele emocionado
Meio envergonhado
De tanto se lamentar
Encheu-se de voraz coragem
E na claridade
Pôs-se a caminhar
Banhado pela luz da lua
Esqueceu de tudo
Que o fez penar
E o dia amanheceu
E ele adormeceu
Em paz...
Ele percebeu
Que o sol já não brilhava mais
Saiu por uma porta
Que se abriu no tempo
E foi buscar a sua paz
Olhou a rua e com os
pés descalços, frios,
Cheio de ternura e dor
Encheu-se de fina tristeza
E na paisagem
Procurou por seu amor...
E então a deusa viva,
Que voava ao vento,
Vendo tanta solidão
Chegou ao seu ouvido
Como fosse um grito,
Assustando o coração
Lhe disse do dia mais belo
Que lhe libertara
De tanta prisão
Calou-lhe num sincero beijo
E voltou ao vento
Ver do céu a escuridão...
E ele emocionado
Meio envergonhado
De tanto se lamentar
Encheu-se de voraz coragem
E na claridade
Pôs-se a caminhar
Banhado pela luz da lua
Esqueceu de tudo
Que o fez penar
E o dia amanheceu
E ele adormeceu
Em paz...
18 abril, 2006

qualquer palavra
agora! já!
uma alavanche de fonemas
que mudem minhas margens de lugar,
que traduzam minhas linhas,
qualquer palavra muda, calma,
com alma,
com gesto e cor,
uma sílaba, uma frase,
um sujeito, um sintágma,
uma interjeição!
qualquer palavra crua, dura e tenaz,
que silencie essas tantas vozes
que dentro de mim
me alucinam
que dentro de ti
me enlouquecem
e que no papel
me saciam...
17 abril, 2006

O homem é, sem dúvida, uma fonte inesgotável de contradições. Talvez por sua falta de natureza e seu excesso de liberdade e espaço, o ser humano, ser inexplicável, ser incompreensível, ser sem serventia e centralizador do mundo nunca consiga harmonizar o que pensa com o que sente, o que sente com o que faz e o que faz com todo o resto. A impulsividade não o poupa de estar sempre vacilando. Age de forma impensada, sim, há coragem, plena consciência, vontade, gana, desejo, e no instante seguinte algo o torna pequeno, covarde, ausente, uma indecisão, uma falta de norte, de rumo, a lucidez sem caminho, o caminho sem ar. Se fosse bicho, saberia exatamente o que fazer. Mas é homem, é duro quando deveria ser terno, é frio quando deveria ser sangue, e intempestivo quando a temperança deveria controlar seus ânimos... é homem... não sabe viver. É José a recuar, é Maria a questionar, é João que sonha e não vive, é Ana que sonha e vive!
Nós somos a única contradição no mundo.
Nós não sabemos usar a razão para viver.
Nós deveríamos nem existir.
Na verdade nós nem existimos: somos uma alucinação coletiva.
Deveríamos tentar viver como pássaros, buscar lá no fundo de nossa alma um restinho de instinto básico, uma fração de nosso perdido manual de instruções. Dentro dele deve estar guardada a receita para agir com coerência, amar com paciência e viver com consciência.
Nós somos a única contradição no mundo.
Nós não sabemos usar a razão para viver.
Nós deveríamos nem existir.
Na verdade nós nem existimos: somos uma alucinação coletiva.
Deveríamos tentar viver como pássaros, buscar lá no fundo de nossa alma um restinho de instinto básico, uma fração de nosso perdido manual de instruções. Dentro dele deve estar guardada a receita para agir com coerência, amar com paciência e viver com consciência.
14 abril, 2006
11 abril, 2006
Intervenção cirúrgica
Chegou o dia operação.
Tinha um problema grave no coração, uma palpitação que fazia lhe arder o peito.
- bisturí!
- Não temos doutor, só um velho marcador de páginas.
- Extensor!
- Só Tolstói capa dura.
- Os sinais estão estáveis?
- Por enquanto sim, está a declamar sonetos de Neruda.
Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi...
- Não estou conseguindo... Há uma hemorragia... bem na veia poética da moça... Sinais estáveis?
- Não me parece bem. Florbela Espanca talvez...
Pi.. Pi... Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
- Tente uma dose de nostalgia!
- Nada Doutor.
- Euforia... a Catarse!
- Não, nada ainda.
- Não reage.
- Perdemos a paciente.
- Não... Acho que nasceu uma poeta.
09 abril, 2006
Sentimental (Los Hermanos-Amarante)

- O quanto eu te falei que isso vai mudar. Motivo eu nunca dei...
- Você me avisar, me ensinar, falar do que foi pra você, não vai me livrar de viver! Quem é mais sentimental que eu?!!...
- Eu disse e nem assim se pôde evitar. De tanto eu te falar, você subverteu o que era um sentimento e assim fez dele razão... pra se perder no abismo que é pensar e sentir.
- Ela é mais sentimental que eu!!
- Então fica bem...
- ...se eu sofro um pouco mais
"Se ela te fala assim, com tantos rodeios, é pra te seduzir e te ver buscando o sentido daquilo que você ouviria displicentemente. Se ela te fosse direta, você a rejeitaria."
- Eu só aceito a condição de ter você só pra mim.
- Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir... e rir.
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