24 agosto, 2022

QUANTO CABE UM CORPO D'ÁGUA?

 

Primeiro o corpo cabe 

na barriga de outro corpo

E vem ao mundo 

- quando, enfim, não cabe mais


Talvez a teta de uma mãe 

caiba na boca dele

E esse pequeno corpo

depois sem fome

caiba nos braços 

de uma avó

que embala...


Anos mais tarde 

e o corpo

talvez de menino

Um menino moreno 

com pés que correm 

e que cabem nas ruas de Guaíba 

e cabem na adolescência de uma periferia 

a fazer amizades e sorrisos

(dá pra ver pela foto)


Sim: é ele.

O corpo de menino moreno

gestado por uma mãe 

embalado por uma avó 

abraçado por tantos amigos 

coube seu nome de anjo 

nas chamadas das escolas onde estudou: Gabriel. 


Esse corpo de gente viva 

que nunca caberá em um açude.

É dele que vem o convite. 


*Gabriel Marques Cavalheiro, 18 anos, morador de Guaíba, desapareceu na semana passada após uma abordagem policial.

15 agosto, 2022

CORREIO SENTIMENTAL II

Mastigar tua tristeza
e triturá-la.
Aproveitar a força 
do ranger de dentes. 
Ruminar até
virar pó: 
pode-poema. 

CORREIO SENTIMENTAL I

Sobre aquela cena hipotética 

em que me perdias para

o cantor Jorge Drexler: 


Eu preferiria não. 

03 agosto, 2022

Se flor, se pássaro, se borboleta






Não fui eu quem plantou esta flor.

Quando a busquei ensejava consolar-me 

de mim, de ti, 

de nossas versões de calendário

todas já rotas, retas, sólidas. 


Nas primeiras semanas em que a cultivei 

Choveu muito

E ela se desandou em lágrimas 

E tons terrosos

e ficou azul

depois roxa

cianótica

cor de morte mesmo.


Pensei que não vingava,

mas tudo bem 

porque adubo 

também nutre.


Mas não. 


Algo desfez-se depois da chuva.

Veio brotando, desabrochando 

se refazendo mesmo 

E já nem sei mais 

Se flor

Se borboleta 

Se pássaro

Ou se somos nós.

05 julho, 2022

QUERIDO DIÁRIO

Hoje fiz a coisa

mais burguesa

a se fazer em

uma terça à tarde:

tirei o sono do atraso. 


Está decidido 

contra o capital 

minha vingança 

será dormida.



08 junho, 2022

DEPOIS ÁGUA

Primeiro a gente perde a vergonha. De existir, de andar no mundo, de falar em público, perde a vergonha de se emocionar, de sentir, como a criar um couro na cara, invencível despudor, o poder de emanar nossa presença. 

Depois de perder a vergonha, a gente perde medo. O assalto da coragem no primeiro passo, assim que de pronto firmamos em marcha, tomamos o rumo. Depois do medo a gente destrava, caminha, nem que seja pra fazer vento e sentir as cócegas de um futuro na barriga ou no pescoço de alguém.

Depois, água. 

UM POEMA PARA UM POETA

Conheci um homem 

que carregava consigo 

sua dignidade de menino.


Ele me contou 

que ainda jovem 

compreendeu o motivo da seda: carícia. 


Com duas mãos de orvalho 

tocou meus olhos de lágrima 


e veja bem: não doeu.


Depois, não sei: parece que engoli uma estrela. 


E entre um soluço e outro, 

ensaiam-se cócegas 

um sorriso

e a paz de quem espera.