Ouço do firmamento um canto para o fim de tarde. Duas gotas de suor percorrem meu rosto por caminhos já percorridos, veios vários de rios infinitos. O sal das lágrimas tempera-me nas horas quentes e as gotas fartas de suor agora me rasgam e regam em vão a pele que habito. O tempo arde e algumas rugas rejuvenescem meu corpo. Um resto infindo de sal do mar que ainda insiste do último banho. A onda, o vento, a falta de riso. O sol se põe e eu me posto verde e aberta para nosso próximo encontro. É nadar ou morrer.
Eu respiro.
09 janeiro, 2020
27 novembro, 2019
ESTA NOITE DORMIREI COM TUA CAMISETA
visitou-me
na forma de um vento
uma saudade
um sopro de dor
da distância que a janela não alcança
teu corpo me esquece
incessante e calmo
o meu se aquece
te recorda
estremece
e durmo com tua camiseta
aquela
que furou na última visita.
19 outubro, 2019
O Cio da Rosa
De manhã
Como tuas pétalas
Desjejum amoroso
Acordo meu corpo com a tua carne
Dentro, em mim
Saciar a fome.
À tarde
Te açoito meu caule
O roçar dos espinhos
Como quem coça
Alívio da pele
Relaxar o tônus
Desnudar o corpo.
À noite
Te perfumo
Com meu hálito
Faço do teu gozo
Meu hábito
E por fim te habito
Sem pétalas, sem folhas, caule ou espinhos
Somente um pedaço de terra, um aroma, uma semente perdida na aurora, à espera de germinar.
Fazer
Brotar
Diariamente
Todas as
Formas
De amar
E reinventar
A cada dia
Nosso jardim.
29 julho, 2019
PRA VIAGEM
Eu poderia passar horas, dias, anos
adjetivando a tua pessoa
E ressaltado o quanto és
atraente
envolvente
reluzente
inteligente
e sagaz
E poderia intensificar tudo
com qualificações adverbiais
de primeiríssima escala
e potencializar tudo
o que é latente
Poderia dizer que
não foi apenas o ar que me fugiu
O mar que me sorriu
O luar que se esbaldou em tua beleza luminescente
E que o simples fato
de te ver
reduz os infinitos gestos de espera
e de desejo
que eu mesma armadilho
pelo caminho
Eu poderia dizer que a idade
não é e nunca será um problema
Porque o amor não é questão de tempo
e sim de
eternidade
Poderia te dizer que da primeira vez que
repousei meu olhar em tua silhueta
foi como se eu mesma me encotrasse a mim
Porque o amor é como um desmemoriado
que em looping procura seu próprio abismo
e se depara sempre com o próprio umbigo
Eu poderia sim
e te contar tantas histórias quanto fosse possível
Como a formar em apenas uma as mil e uma noites
Realocando as dobras de meu ser em teu ser
como num jogo de quebra-cabeças
Eu poderia escrever-te as canções
Que te dediquei
na juventude
E te dedicar as canções que escreverei
em mim apenas com a pétala do teu olhar
Os melhores versos que as palavras podem gestar
Elaborar-te comícios de amor
Poderia deixar meu corpo
se emocionar
com a presença do teu corpo
Como se nunca houvesse um tempo de distância entre nós.
E no entanto
por enquanto
eu quero
apenas
um café
mas pode
ser pra viagem.
28 março, 2019
18 março, 2019
AS ILUSÕES DA FALA: DESGASTE
Essa fala excessiva
é um entrave.
A língua tropeça, cansada
entre os dentes
e não há fonemas
o suficiente...
É uma metástase de palavras
Uma grande cortina de fumaça
a disfarçar as notas claras do meu coração
Como um mágico que brinca
Com o público
E esconde o segredo na mão!
Mas no teu silêncio - amor -
Vislumbro e busco
incansável
Outros modos de usar a boca.
é um entrave.
A língua tropeça, cansada
entre os dentes
e não há fonemas
o suficiente...
É uma metástase de palavras
Uma grande cortina de fumaça
a disfarçar as notas claras do meu coração
Como um mágico que brinca
Com o público
E esconde o segredo na mão!
Mas no teu silêncio - amor -
Vislumbro e busco
incansável
Outros modos de usar a boca.
15 janeiro, 2019
ESCREVER PARA ESQUECER
Todos os poemas de amor
que eu não fiz pra você
serão publicados
São centenas de versos
Sobre mim e minha pele
Em outras peles
Outros corpos que não o teu
Tantos anos tentando
Te esquecer
E só o que eu consegui
Foi escrever um livro
04 dezembro, 2018
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