22 janeiro, 2013

O duro Leite


A dor que paira no ar
Rompe os limítes da alma
E invade o espaço do agora

Como um guarda-chuva de chumbo
Enterra-se na brita molhada
E não deixa o passante passar

Eu, fugo no meio do nada
Refugo meus golpes sádicos
Com belas recolhidas

Há tempo pra tudo
Até para amar
entre escombros

14 dezembro, 2012

"Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa."

 


Eu
Meu medo
Animal

Entre a sombra
Entre escombros
Entre o cetro
E o centro
Entre o mar
E o manantial
Viro bicho
Tua força

Eu: meu medo
Anima
Graal

(O título é uma citação de Vinícius de Moraes em "Ausência")

30 novembro, 2012

DA LAVAÇÃO



a água
que  prepara o corpo
prepara o espírito
e a comida

na panela
a água ferve
no corpo
a água esquece
e na alma
a água vê

A água
lava
leve
e leva
dos olhos
a lágrima
teimosa

28 novembro, 2012

Ocos do Acaso



Um grito percorre o cais

Abafado entre os navios
que esperam em vão
novas partidas
adentra o oco desvio
mastigando o aço
corroído pelo tempo

Sopra um vento, momento

Os anseios partem
Os navios ficam
E meu barco
despatriado
invade as águas
em busca da noite

Ainda é cedo
para a morte
do relento...


27 novembro, 2012

Casa Abandonada




A casa abandonada carrega em si
O estigma da vitória esquecida.

Entre os cômodos
Existem velhos incômodos
Que nem uma demão de cal
E quatros punhados de sal
Hão de iludir ou refrear

Fazer silêncio na casa abandonada
É como manter
Uma faca amolada
À espreita de intrusos

E há um gemido confuso
Um suspiro, talvez
Como um nó a sussurrar

Mas uma casa abandonada
Mais do que tudo
Merece sempre uma luz acesa
Um lampião, qualquer clareza
Que possa
A qualquer tempo
Nosso retorno guiar...



22 novembro, 2012

Desinspiração

Tempos de cuidados, tempos de desinspiração... Muitas vezes eu já morri nesta vida. E em todas elas eu sobreviví!

Contra todos os males, Quintana, o Poeta:

SONETO XVII

Da vez primeira que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões de estrada!
Ah! desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

(Mário Quintana - A Rua dos Cataventos)

19 novembro, 2012

Ave-Maria Surfista



Eu não gosto de brincar na beira do mar
e acabo sempre nadando na arrebentação.

Por isso, vez que outra, volto sufocada, afogada...

As ondas quebram em meu rosto,
disfarçando as lágrimas
e abafando os gemidos chorosos
que, como uma velha canção de pescador,
teimam em arranhar meus seios
teimam em cozinhar-me

vivo em banho-maria.

Eu não gosto de brincar na beira do mar
e acabo sempre me arrebentando.