Sobre aquela cena hipotética
em que me perdias para
o cantor Jorge Drexler:
Eu preferiria não.
Síncope, Versos Avulsos, O Sal das Coisas e Poemas de Amor
Sobre aquela cena hipotética
em que me perdias para
o cantor Jorge Drexler:
Eu preferiria não.
Não fui eu quem plantou esta flor.
Quando a busquei ensejava consolar-me
de mim, de ti,
de nossas versões de calendário
todas já rotas, retas, sólidas.
Nas primeiras semanas em que a cultivei
Choveu muito
E ela se desandou em lágrimas
E tons terrosos
e ficou azul
depois roxa
cianótica
cor de morte mesmo.
Pensei que não vingava,
mas tudo bem
porque adubo
também nutre.
Mas não.
Algo desfez-se depois da chuva.
Veio brotando, desabrochando
se refazendo mesmo
E já nem sei mais
Se flor
Se borboleta
Se pássaro
Ou se somos nós.
Hoje fiz a coisa
mais burguesa
a se fazer em
uma terça à tarde:
tirei o sono do atraso.
Está decidido
contra o capital
minha vingança
será dormida.
Primeiro a gente perde a vergonha. De existir, de andar no mundo, de falar em público, perde a vergonha de se emocionar, de sentir, como a criar um couro na cara, invencível despudor, o poder de emanar nossa presença.
Depois de perder a vergonha, a gente perde medo. O assalto da coragem no primeiro passo, assim que de pronto firmamos em marcha, tomamos o rumo. Depois do medo a gente destrava, caminha, nem que seja pra fazer vento e sentir as cócegas de um futuro na barriga ou no pescoço de alguém.
Depois, água.
Conheci um homem
que carregava consigo
sua dignidade de menino.
Ele me contou
que ainda jovem
compreendeu o motivo da seda: carícia.
Com duas mãos de orvalho
tocou meus olhos de lágrima
e veja bem: não doeu.
Depois, não sei: parece que engoli uma estrela.
E entre um soluço e outro,
ensaiam-se cócegas
um sorriso
e a paz de quem espera.
MOTE PARA UM SAMBA CONTRA-OSTENTAÇÃO
Na roda gigante da vida
As vezes a volta é por baixo.
Atravessamos juntos
O abismo da saudade
Pontes sobre o nada
Pela força da idade
Nos encontramos serenos
Despidos de mocidade
Nos habitamos a esmo,
Repletos de intensidade
Acordar mais cedo
Despertar com sorte
Evitar a morte
Para sustentar
Acordar com medo
Ir dormir mais cedo
Inventar um sonho
Para conservar
Acordar pra morte
Evitar a sorte
Despertar do sonho
Inventar AMAR
Acordar pra sorte
De deitar cabelo
Enfrentar o medo
De se levantar
E caminhar...
Caminhar.
Baby, não deu pra esperar
Eu sei que você queria
Mas não deu pra ficar
Desculpe a louça na pia
E tanta fumaça no ar
Baby, peguei seu casaco
Pro caso de tempo ruim
As vezes preciso de abrigo
Às vezes me escondo de mim
Mas baby, eu tive que ir
Deixei uma nota de cem
Pro caso da casa cair
Plantar silêncios
entre os pelos do teu corpo
Criar sulcos, redemoinhos afetivos
Regar com a água da boca
Comprei um perfume
para o dia do nosso encontro
mas sou ansiosa
e já o estou usando:
Apressa-te.