28 março, 2013

Poema a Quatro Pés*



Meus pés na areia
forjam covas miúdas
que o vento esconde
por falta de cadáveres.
 
Os pés cansados
Plantados
Não passeiam

Nos pés
Há plantas

E eu
Não tenho
Planos
 
 
*Guilherme Bica e Anne Lee Poeta

06 março, 2013

Da Contrução do Poeta


Nenhuma palavra me define
Esse vazio, nada preenche
Sigo mudando, tentando ser firme
O prazer como refúgio, ilusão perene
À contra-gosto,
Invento
Tijolo por tijolo
Assento
Em uma construção-esboço
Pelo fio que me resta ainda arde
Uma busca sincera, uma saudade
Sou escrava
de minha liberdade


28 fevereiro, 2013

Status Quo

 

Domesticar a minha angústia
a ponto de poder alimentá-la
sem que ela me morda
 
Solidificar a solidão
sensibilizar a razão e
não morrer de coração
 

21 fevereiro, 2013

Soma



Em cada gesto abjeto
Os desejos encobertos
A sestrosa negação
 
Se um dia me encontrares
Se um dia perguntares
Certamente direi não
 
Mais mil noites pra viver
As mil dores de morrer
Teu amor: a solidão

 

19 fevereiro, 2013

Deusa Coroada




 
Se a mim fosse dado o dom da palavra
Elevaria minha voz ao mais alto agudo
E gritaria a todos algo colorido e mudo
Um trânsito breve entre o ardor e a estática
 

 - Equivocam-se todos!
 
Pois que a mim me foi dado o dom do silêncio
E desperdiço-o em cada verso
Canto, pranto e nudez
Sou escrava da minha língua
 
 
 Se em mim tudo se calasse
Eu já não seria...
 

18 fevereiro, 2013

Transe Marítmo



Avançava sobre a água
Como um barco a vela
 
Suaves rajadas de vento
Agiam sobre seu destino
 
Ancorou-se em meio ao oceano
Abandonou seus deuses e mitos
 
Calmaria e fúria, em céu reflexo:
Aguardando terra firme
 

15 fevereiro, 2013

Alma em Cio

 
 
Ira, caos
Orvalho, flor
 
Pedra, espinho
Bálsamo e dor
  
O cio da alma
 
Silen-cio

14 fevereiro, 2013

Da Solidão dos Corpos

 
 
Pudera medir a distância
Entre a minha solidão e a tua
E preencher esta fenda abissal
Com o mar etéreo da paixão vivida
Nadar, de uma margem à outra
Usando o fôlego acumulado
Em tantas dores e amores
Só um suspiro e estaria lá
 
Pudera eu ignorar a solidão

13 fevereiro, 2013

Do Amar e o Misticismo

 

A brisa que toca
Teu cabelo enluarado
Avisa-me sobre
O bem e sobre o mal
Que podem brotar
Da tua boca, carne e espírito
 
Alimento-me devagar
Sorvendo cada gole como
Se fosse o último
Alimento-te de amar
Para que o bem permaneça
E o mal pereça
 
Latitude e longitude:
Teu corpo esguio
Faz frente em minhas mãos
Ser feliz é um detalhe
O importante é estarmos
Misticamente em paz.

22 janeiro, 2013

O duro Leite


A dor que paira no ar
Rompe os limítes da alma
E invade o espaço do agora

Como um guarda-chuva de chumbo
Enterra-se na brita molhada
E não deixa o passante passar

Eu, fugo no meio do nada
Refugo meus golpes sádicos
Com belas recolhidas

Há tempo pra tudo
Até para amar
entre escombros

14 dezembro, 2012

"Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa."

 


Eu
Meu medo
Animal

Entre a sombra
Entre escombros
Entre o cetro
E o centro
Entre o mar
E o manantial
Viro bicho
Tua força

Eu: meu medo
Anima
Graal

(O título é uma citação de Vinícius de Moraes em "Ausência")

30 novembro, 2012

DA LAVAÇÃO



a água
que  prepara o corpo
prepara o espírito
e a comida

na panela
a água ferve
no corpo
a água esquece
e na alma
a água vê

A água
lava
leve
e leva
dos olhos
a lágrima
teimosa

28 novembro, 2012

Ocos do Acaso



Um grito percorre o cais

Abafado entre os navios
que esperam em vão
novas partidas
adentra o oco desvio
mastigando o aço
corroído pelo tempo

Sopra um vento, momento

Os anseios partem
Os navios ficam
E meu barco
despatriado
invade as águas
em busca da noite

Ainda é cedo
para a morte
do relento...


27 novembro, 2012

Casa Abandonada




A casa abandonada carrega em si
O estigma da vitória esquecida.

Entre os cômodos
Existem velhos incômodos
Que nem uma demão de cal
E quatros punhados de sal
Hão de iludir ou refrear

Fazer silêncio na casa abandonada
É como manter
Uma faca amolada
À espreita de intrusos

E há um gemido confuso
Um suspiro, talvez
Como um nó a sussurrar

Mas uma casa abandonada
Mais do que tudo
Merece sempre uma luz acesa
Um lampião, qualquer clareza
Que possa
A qualquer tempo
Nosso retorno guiar...



22 novembro, 2012

Desinspiração

Tempos de cuidados, tempos de desinspiração... Muitas vezes eu já morri nesta vida. E em todas elas eu sobreviví!

Contra todos os males, Quintana, o Poeta:

SONETO XVII

Da vez primeira que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões de estrada!
Ah! desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

(Mário Quintana - A Rua dos Cataventos)

19 novembro, 2012

Ave-Maria Surfista



Eu não gosto de brincar na beira do mar
e acabo sempre nadando na arrebentação.

Por isso, vez que outra, volto sufocada, afogada...

As ondas quebram em meu rosto,
disfarçando as lágrimas
e abafando os gemidos chorosos
que, como uma velha canção de pescador,
teimam em arranhar meus seios
teimam em cozinhar-me

vivo em banho-maria.

Eu não gosto de brincar na beira do mar
e acabo sempre me arrebentando.

17 novembro, 2012

Da Procrastinação do Desejo



O meu desejo é como a força da manhã invadindo a madrugada
Deixando um rastro de luz e de espanto e de resistência por onde passa
Deixando os ébrios corpos à mercê da hora amanhecida
O meu desejo brinca de menina, de menino, de bandido
Não tem nada o meu desejo
Pois que gosta da verdade e escancara a voluptuosidade de cada olhar
O meu desejo morde a tua carne sem saber-se vegetal
Como um nó na garganta
O meu desejo é a salamandra que cura e fere
O meu desejo vem de longe
Muito antes do tempo de ter tempo
Vem de terras claras e mansas
Ganha corpo no teu cenho
E deságua na nascente da tua verdade
Mar infinito de desejos
Que a mim é dado com ausência de corpo, de voz e de sentido
Que a mim é dado como uma vaidade íntima e etérea
O meu desejo é o teu desejo
E moram todos
Na liberdade.

13 novembro, 2012

Insone




Há uma dança velada
Como um jogo de corpos 
Em um só corpo

Minha alma quase me escapa
Como um bicho assustado
Que necessita doma

Passo por passo
Me aproximo de mim mesma
Recorte de um tempo meu

Entre acordes da manhã
Recomeço meus compassos:
Sou minha própria bailarina