18 outubro, 2011

fino da taça



Esvaziar a cabeça das idéias
e dar espaço ao sentimento
ao cheiro do álcool
ao fino da bossa
andar de bicicleta
e pelada
e na chuva
e ganhar um beijo
molhado
roubado
trocado
um pouco estalado
pão e dor
verso de tambor
e sair por aí
a dançar
a dançar
e esquecer
apenas esquecer
que fui borboleta
neste imenso salão
fui apenas a borboleta
que você viu cair
morta
estendida no chão.


Uma taça de vinho,

chega pra lá meu bem...

01 junho, 2011

Sobre a arte do desapego



É semelhante à dor do parto

mas um pouco menos colorida

A intensidade é flutuante

O barco segue


Mas depois daquele assalto

nunca mais fui a mesma...


Fiquei um pouco bandida.

E até hoje eu guardo uma máscara debaixo do travesseiro.


18 maio, 2011

Lágrimas no meio-fio



Lágrimas no meio-fio...
Vim bater aqui
na porta da tua casa
Escondida entre as árvores
pique-esconde de verdade

Lágrimas no meio-fio...
Te espero aqui
Com a boca entre os joelhos
que já foram teus
e que já foram meus

Lágrimas no meio-fio...
Escutando os passos
Não me escondo mais
O ranger de dentes
me entrega

Há gente na rua

01 abril, 2011

Abraça-me assim, até que eu não caiba mais em mim



Ventava na varanda
e como se não houvesse música
o vento me distraía...

Dura pouco o brilho dos meus olhos.
Sem luar, sem fantasia,
onde posso me esgueirar?

Mas teu corpo, imerso em mim
Esse sim, será meu fim!
E a razão do meu cantar!

02 janeiro, 2011

Do dia em que partimos em um barquinho de papelão...



E teve aquele encontro mágico
a grande noite dos olhos coloridos
Tal qual as três Marias, éramos um e mais
simbiose dos corpos e mentes

Nem chão nem céu, não havia limítes
A água invadia nossos sentidos
Acordamos pela manhã
Em um belo submarino amarelo

Viagem longa, os pés cansados
Nosso caminhar é diferente desde então

E devolvemos ao rio todos os peixinhos dourados
que trouxemos, nos bolsos, do ládo de lá...

29 dezembro, 2010

Tem sempre um tempo inverso



Quase sempre
descobre-se um lugar
novo pra ficar,
apenas deixar-se levar

para longe
ou para dentro:
tanto faz
você conduz

o infinito é inverso
invento moda
meu tempo é curto
e infinito é o universo

10 dezembro, 2010



Depois de toda a confusão histérica
que organizou -se em volta do corpo
ninguém viu passar a mulher
ou notou que no canto dos seus olhos
não havia sinal qualquer de lagrima ou dor.

Ninguém envelhece impunemente.
O tempo é duro, e constrói secadouros invisíveis
entre nossos dedos.
É por isso que mulher não gosta de vento...

13 setembro, 2010




Soneto do só

Depois foi só. O amor era mais nada
Sentiu-se pobre e triste como Jó
Um cão veio lamber-lhe a mão na estrada
Espantado, parou. Depois foi só.

Depois veio a poesia ensimesmada
Em espelhos. Sofreu de fazer dó
Viu a face do Cristo ensangüentada
Da sua, imagem – e orou. Depois foi só.

Depois veio o verão e veio o medo
Desceu de seu castelo até o rochedo
Sobre a noite e do mar lhe veio a voz

A anunciar os anjos sanguinários...
Depois cerrou os olhos solitários
E só então foi totalmente a sós.

(Vinicius de Moraes)