09 dezembro, 2013

Versos Avulsos para uma Canção Desmerecida



É como se tua presença  nunca fosse notada
Porém, tua ausência, sempre percebida

Tem dias normais, em que não há nada
Tem dias iguais, em que só há vida!

06 dezembro, 2013

Além do Pneumotórax



Um dia
Sabe-se lá como
Acordou misteriosa:
Os médicos bateram chapa
Examinaram-lhe  as têmporas
Pediram elétro...

- Pobre moça...  É um descompasso no coração!

Ela comprou um tamborim usado
E toda noite bebe um gole
Da velha cachaça de rolha
Que herdara do avô

O coração descompassado
Pelo milagre do samba
Agora está calibrado
Diz que o mistério nunca foi embora
Mas sente-se curada
Por dentro e por fora

Eis o mistério do samba!




26 novembro, 2013

La Petite Mort II

 

Let the sun make me shine
Let the moment pass me by
I'm on the way, I'm on the way
Never let me - let me die
 
 

05 novembro, 2013

Da Vida Sonhada

  
 
Eu te prometo dias repletos de poesia:
Desde a nuvem que passa,
Preguiçando nosso olhar depois do almoço
Às formigas que importunam nossa sesta
Tudo será cheio de graça, de paz e de espanto
Tal qual nossos poemas
Que serão paridos na beira do rio
 
Eu te prometo noites cheias de aromas:
Da comida fresca na mesa posta, que te espera
Do meu banho quente e demorado em flores, que te espera
Do meu hálito sereno com palavras mansas, que te espera
Do meu corpo exausto, e casto, e vasto, que te espera
Do meu sexo vivo, que te espera
O aroma da minha espera.
 
Eu te peço algo em troca:
Tua mão no meu cabelo
Teus dedos enlaçados em minhas rédeas
E isso basta.
 
O resto a gente conserta
No escrever dos dias
O resto a gente inventa
No desenrolar das noites
O resto é estrada
E a gente caminha.

31 outubro, 2013

Noite Varada


Escutávamos juntos o canto dos primeiros sabiás, noite varada, olhos exaustos, água da pena e uns bons cigarros. Aos que se entregavam ao sono, distribuíamos cobertas, colchas, travesseiros, almofadas, o que fosse. Ajeita-se qualquer pessoa quando esta dorme por cansaço físico. Tarefa mais fácil ainda quando a parada é etílica. Nenhuma alma, mesmo que perturbada, resiste ao sono do porre. Até porque, dormir é morrer um pouco, o adeus tão esperado, descansar. Mas o canto dos sabiás... Me lembrava o Tom, “vou voltar, sei que ainda vou, vou voltar para o meu lugar...”, e uma angústia absurda me rasgava, tinha a noção da fome no mundo, um saudade de casa, uma vontade de regresso. Mas pra onde eu vou voltar? Eu, que não tinha lugar. “Para onde estamos indo?”, eu indagava, com os olhos marejados. “Estamos indo sempre pra casa”, disse ele, com a voz baixa e mansa, apagando o último cigarro, bebendo o último gole d’água, e me dizendo adeus, pela última vez.

30 outubro, 2013

Meu Espelho



 
Não temo o futuro
Esconderijo secreto
Do que já está aqui
Pois no instante que virá
Nada existe se não o que não há
 
Não sofro o passado
Deixo que meus mortos
Durmam e descansem
Esqueço, no mais,
Até das flores e das pedras
 
Mas esse instante que passa
É meu martírio e meu alento
Esse é lugar onde vivo
O presente é o espelho
Do meu tempo de viver
 

15 outubro, 2013

Há vagas


 
Em dias assim, minha alma transita
entre o mundo e o mundano
entre o real e o insano
Buscando alguns sortilejos
 
E nesta esfera mitológica
Imponho minhas paixões
Empenho as ilusões
 
Às varejeiras ponteadas: a vida
Às matadeiras de combate: a morte
 
Excepciono-me: há vagas
 
 

10 outubro, 2013

Do Prazer de Primaverar-se


Desprender-se
Desaprender-se
Desapegar-se
 
Perseguir-se
Persistir-se
Permitir-se
 
Ser a folha
Ramificar-se
Ser a raiz
Florecer-se
 
 Entre os anjos
Esgueirar-se
Entre as trevas
Perceber-se
 
E depois aproveitar
E gozar
E relaxar 
 
Já chegou a primavera
Já é tempo de amar!