17 novembro, 2012

Da Procrastinação do Desejo



O meu desejo é como a força da manhã invadindo a madrugada
Deixando um rastro de luz e de espanto e de resistência por onde passa
Deixando os ébrios corpos à mercê da hora amanhecida
O meu desejo brinca de menina, de menino, de bandido
Não tem nada o meu desejo
Pois que gosta da verdade e escancara a voluptuosidade de cada olhar
O meu desejo morde a tua carne sem saber-se vegetal
Como um nó na garganta
O meu desejo é a salamandra que cura e fere
O meu desejo vem de longe
Muito antes do tempo de ter tempo
Vem de terras claras e mansas
Ganha corpo no teu cenho
E deságua na nascente da tua verdade
Mar infinito de desejos
Que a mim é dado com ausência de corpo, de voz e de sentido
Que a mim é dado como uma vaidade íntima e etérea
O meu desejo é o teu desejo
E moram todos
Na liberdade.

13 novembro, 2012

Insone




Há uma dança velada
Como um jogo de corpos 
Em um só corpo

Minha alma quase me escapa
Como um bicho assustado
Que necessita doma

Passo por passo
Me aproximo de mim mesma
Recorte de um tempo meu

Entre acordes da manhã
Recomeço meus compassos:
Sou minha própria bailarina


12 novembro, 2012

Arcabouço



Destilo a nicotina
entre meus dedos
tortos.

A vontade de roubar-te um beijo
é um desejo permanente,
dissimulado
entre um cigarro
e outro.

Parar de fumar agora seria o verdadeiro crime passional.

11 novembro, 2012

Canto da Sereia



Pelas margens do teu corpo
Meu abrigo em teu porto
Mansidão de véu anis

Ouvi pássaros cantarem
Vi teus pés me libertarem
De uma tarde fria e gris

Há um pouco de bondade
No coração da cidade
A canção do mar eu fiz

E no teu olhar cativo
Suportei o amor que vivo
E pensei em ser feliz

06 novembro, 2012

Do Viver Sonâmbula



Sonhar com o dia em que 
acordarei no teu beijo
O absinto das palavras
Amor, fel que embriaga
Um ranger de dentes atrás da porta
O sol nasce para quem abre os olhos
E vê que não está só.

30 outubro, 2012

Remordimientos



Tenho vontade de tocar-lhe os cabelos.
Tenho um carinho de dedos guardado para esse dia...
Se não trouxer-me amor, dou-te minha língua.
Mas se o amor estiver lá, se enfim o céu da tua boca virar meu paraíso, esquece...
Pois por todos os dias morarei em teu pêlo, e vivendo-te, morrerei.
E amando-me, viverás.

Roda a viva




Por mais que eu sinta
Meus pés cansados
A dor me escapa
Enquanto espero

Porque eu caminho
A mercê do vento
Distraio minhas sandálias
E brinco com as pedras

O mundo me alcança
Em acordes maiores
Onde houver sol
Ali repouso minhas mágoas

Nem sempre a vida
é dança de roda
Mas rodar sobre a estrada
Ainda é sentir-se vivo.

26 outubro, 2012

A Poeta e o Passarinho I e II





A Poeta e o Passarinho I

-Ah! Passarinho...
Vem cantar junto do meu ninho!

-Ah! Lindo demais!
Mas se eu pousar, não canto mais...



A Poeta e o Passarinho II

Avistei as
asas de longe
Planando leve
quase a pousar
E o seu canto
triste e fagueiro:
Que tens de dor?
Que tens de dar?

De súbito
riso e compasso
Meu coração
a desejar
Venci o verbo
Ganhei poesia:
Em nosso ninho
podes voar...